sexta-feira, 18 de junho de 2010

A arquitetura do medo

Condomínios fechados, casas cercadas de grades e arame farpado, centros de lazer privativos, são um dos inúmeros exemplos de um novo conceito urbanístico: a arquitetura do medo. Mas até que ponto a paranóia de segurança tornou-se maior que a própria violência? Onde começa o medo e onde se torna uma fobia? Como a mídia influência na insegurança pública?

Nas ruas de São Paulo, umas das maiores metrópoles do mundo, além da violência constante, sentimos olhares inseguros, pessoas receosas de sair à rua e até mesmo duvidosas de sua segurança dentro da própria casa. A arquitetura do medo aparece tanto nas zonas ricas, quanto nas pobres, em moradias ou comércios. É nacional e sem precedentes.

Segundo dados do Ministério da Justiça, os homicídios por arma de fogo têm diminuído no Brasil desde 2004. Naquele ano, foram 48.374 vítimas. Em 2006, 46.660. Essa redução parece mínima, os números são altos ainda. Mas, se olhados dentro deste contexto, ganham um significado maior. De 1996 a 2003, os assassinatos foram de 38.888 para 51.043, estes números são maiores do que o crescimento da população.Os homicídios tiveram aumento de 20%, enquanto o crescimento populacional foi de 16,3%, revela o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008, divulgado pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) e pelo governo. O estudo registra, no entanto, que entre 2003 e 2006 houve queda de 8% no número de assassinatos. Ainda assim, foram mortas 46.660 pessoas em 2006, o equivalente a 127 por dia - 74,4% delas por arma de fogo. Desde 1996, foram assassinados 500.762 brasileiros.

O medo é capaz de transformar uma sociedade, trancafia as pessoas em sua própria insegurança. Os dados podem até indicar que o Brasil caminha para uma vida urbana menos violenta, mas a percepção dessa situação se mostra lenta, parece até uma invenção governamental para iludir o público. Seria possível afirmar que hoje em dia é mais seguro andar nas ruas do que há quatro anos atrás? Tecnicamente, sim, mas o problema é que isso não faz ninguém se sentir mais protegido. E nesse caso a percepção é muito maior do que o fato.

“Como dizia meu pai, o que faz um ladrão é a oportunidade”, afirma a dona de casa Maria do Carmo Souza, 46 anos, moradora da periferia da zona leste de São Paulo há 40 anos. Apesar de viver a tantos anos no mesmo lugar e nunca ter sofrido um assalto dentro de casa, dona Maria se sente mais segura com as grades envolvendo toda a sua moradia. “Antigamente vivíamos com mais tranqüilidade, eu podia ir até uma vizinha e bater um papo, hoje nem as crianças brincam mais na rua como antes”, relata dona Maria.

Esse isolamento que a nova arquitetura urbana produz, tende a inibir a proximidade entre as pessoas, afastando as relações sociais e fazendo com que as novas gerações cresçam, já com o medo da violência estigmatizado. “Eu brinquei muito na rua, ficava até tarde com as outras meninas, com a minha filha já é diferente, ela só sai comigo do lado, imagine como vai ser com meus netos”, indaga a mãe. As crianças estão cada vez mais “presas” dentro de casa e se divertem com que a tecnologia lhes oferece, Internet, jogos no computador, videogames etc. Como a dona Maria do Carmo disse, estão deixando de ser crianças muito cedo.

A comunicação entre as pessoas diferentes estão se distanciando. E isso dá margens para que a fantasia, alimentada pela realidade, que de fato é muito violenta, crie monstros às vezes maiores do que são, o espaço de convivência social vai se restringindo, e o medo aumenta cada vez mais. As pessoas colocam muros muito altos e fios eletrificados porque há uma necessidade real. Nos últimos cinco anos, todo mundo conheceu alguém que foi assaltado, seqüestrado ou assassinado.

Segundo o jornalista, cientista social e professor universitário Elvis Wanderley dos Santos, os meios de comunicação influenciam diretamente na expansão da cultura do medo. “Antigamente não havia um contexto midiático, já hoje em dia as pessoas conseguem informação de tudo. Quanto mais informadas sobre a realidade, mais medo elas sentem”, afirma o jornalista. A televisão assim como informa, também aliena a população. É um mecanismo de fuga psíquica para aliviar a tensão, constante em que se vive nas cidades. “Tudo tem ponto positivo e negativo. Quem não tem condições financeiras de ir a um teatro, cinema, refugia seu cansaço semanal na TV”, relata Elvis.

Há quem lucre com a violência urbana, a indústria da segurança é a que mais cresce no Brasil e no mundo. PABX Intelbras, 4utech, Detronix, Simtrack, Multitel, Acloman, Novacell, Osastec, Projemax, são algumas das empresas deste ramo. Integrantes de um negócio que envolve tecnologia, dados estatísticos, paranóia, mão de obra (são 600 mil vigilantes privados no Brasil, entre oficiais e clandestinos) e muito dinheiro: no ano passado foram R$ 15 bilhões de lucro.
“Por trás de disso tudo existe uma grande máquina, o comércio da segurança, quanto mais as pessoas sentem medo, mais elas querem se sentir seguras” afirma o professor.

A tragédia e o caos urbano se tornaram às pautas principais de alguns veículos jornalísticos. A mídia cobre a violência com exagero e alimenta o medo na população. Esse é um dos principais fatores para uma paranóia desmedida, a sociedade se torna menos sábia e mais arisca. “O sensacionalismo só existe porque há uma demanda, as pessoas assistem e dão audiência para esses veículos”, relaciona o jornalista.

A cultura do medo

Se a apresentação da violência como forma agressiva, cria uma paranóia,
como se explica o interesse das pessoas pela informação trágica? O medo está nos olhos de quem vê e nas mãos de quem manipula o que é visto. "Toda Análise da cultura do medo que ignora a ação da imprensa ficaria evidentemente incompleta. Entre as diversas instituições com mais culpa por criar e sustentar o pânico, a imprensa ocupa indiscutivelmente um dos primeiros lugares", é o que diz Barry Glasser em seu livro cultura do medo.

A cultura do medo é globalizada. E a mídia tem o papel de difundir esta cultura para o mundo, ajudando a criar um imaginário sobre o medo.
"A cultura deixa claro o que o sucesso da difusão do medo depende não somente da forma como é expresso, mas também da eficácia em exprimir ansiedades culturais profundas”,Glasser. Percebemos que a existência de uma cultura do medo se estabelece desde que somos crianças, em nossa infância. Através de conceitos e noções que definem o que é normal, seguro e saudável. Sempre que construímos alguma noção que nos gera sensação de segurança é porque negamos outras que possam nos desestabilizar, gerar pânico. Com a cultura do medo sendo promovida e difundida pelos meios de comunicação de massa a violência, o pânico e o medo, são difundidos pelo mundo.

Segundo o psiquiatra do Hospital do Fundão (UFRJ), Yago Dias, o medo da violência não é especificamente uma doença, mas sim, uma defesa natural de qualquer animal. “O medo se torna uma doença quando é algo desproporcional e incapacitante”, afirma o médico. As pessoas estão cada vez mais “conformadas” na situação em que vivem, a violência que é digerida constantemente nos meios de comunicação, gera uma banalização. “Hoje vemos a violência na realidade e também na TV, no cinema. Como essa imagem está muito presente, há banalização. Vemos todo dia na mídia que pessoas matam e dizimam” relata o Psiquiatra.

Algumas pessoas desenvolvem certas fobias e até a síndrome do Pânico, mas segundo o especialista, não há alguma ligação direta: - O pânico é um quadro de ansiedade que se desenvolve por causa do medo de algo que outras pessoas não têm. Há o medo da violência, que está ligado à ameaça. A proximidade dos episódios violentos é ameaçadora e maior na medida em que a pessoa se identifica com a vítima de alguma forma. Pela classe social, por exemplo.

As condições em que a população é exposta, nas grandes cidades, segundo o Dr. Yago também influênciam na incidência de fobias. “O transtorno ansioso depende de facilitações do meio ambiente para aflorar. Com as características que as grandes cidades adquiriram, a população está mais exposta a situações de risco e é muito provável que isso contribua para o surgimento de manifestações fóbicas em pessoas que, de outra forma, teriam menos chances de vivenciar o problema" alerta o especialista.

A questão é que a sociedade está presa dentro de um circulo vicioso, deixa de lado a coletividade e a convivência urbana, por causa da insegurança. As pessoas se trancafiam atrás de grades para tentar proteger o pouco, ou o muito, que tem.

Num relato de Ciro Pirond, arquiteto diretor da Escola Cidade, ele diz que violência urbana tem sua origem na miséria. Não serão muros, grades ou repressão que solucionará o problema. Isso apenas acirra a exclusão. É necessária uma ação educativa transversal, capaz de olhar com generosidade nossas calçadas e ruas e perceber o que está acontecendo.